Em Apiaí, Mina de ouro abandonada vira atração turística
03/03/2009
Uma
antiga mina de ouro, desativada em 1942, constituía para o
Município de Apiaí um passivo ambiental que oferecia
graves riscos à população, especialmente por se
localizar próximo à área urbana. Mesmo a sua
transformação em área de utilidade pública,
em 1998, não amenizou o problema, pois a prefeitura local
não dispunha de recursos para desapropriá-la.
Esta história, que tinha todos os ingredientes para ser mais um
exemplo de descaso, começou a caminhar para um final feliz, em
2002, quando o geólogo Hélio Shimada, do Instituto
Geológico, órgão da Secretaria do Meio Ambiente -
SMA, propôs à Prefeitura de Apiaí o aproveitamento
turístico da mina, seguindo o exemplo de experiências de
sucesso em outros países. O geólogo citou, ainda, o
exemplo do Parque das Pedreiras, em Curitiba, no Paraná,
reconhecido internacionalmente como exemplo de
recuperação ambiental de áreas degradadas.
Com o apoio do prefeito Emilson Couras da Silva, que ocupava o mesmo
cargo na época, foi negociada a aquisição da
área, em 2003, pela Camargo Corrêa Cimentos que a doou
para a prefeitura. “Assim se iniciou a efetiva
implantação do Parque Natural Municipal do Morro do Ouro,
com uma área de 540 hectares”, explica Shimada.
O objetivo era a transformação de um passivo ambiental em
opção de renda, explorando principalmente o ecoturismo,
criando a oportunidade para jovens atuarem como monitores, devidamente
treinados pela prefeitura. Além disso, o projeto visava à
preservação da área de mananciais da cidade
formada pelo conjunto de drenagens do Morro do Ouro.
Hoje, após a implantação de uma infraestrutura que
inclui trilhas de caminhadas e um centro de informações,
a antiga mina constitui um importante atrativo turístico, tendo
recebido cerca de 6.500 visitantes em 2007. O parque promove, ainda,
atividades de educação ambiental e recebe, para fins
didáticos, estudantes de Geologia da Universidade Estadual
Paulista – UNESP, de Rio Claro, que têm no local a
oportunidade de desenvolver estudos de iniciação
científica.
Segundo Shimada citando dados da Companhia de Pesquisa de Recursos
Minerais – CPRM, o Morro do Ouro apresenta minérios de
ouro em forma de veios de quartzo cortando os xistos, contendo sulfetos
de ferro e cobre, e limoníticos, formado por quartzito
enriquecido com óxidos de ferro. O ouro está contido nas
estruturas cristalinas dos sulfetos metálicos que, quando
oxidados, apresentam o metal na forma livre, em partículas de
dimensões variadas.
A implantação do parque temático, ainda em
andamento, demandou a criação de um grupo de trabalho com
profissionais de diversas especialidades, que procedeu ao levantamento
e análise de informações técnicas e
históricas. A elaboração e execução
do projeto envolveram não somente a seleção e
preparação das galerias para a visitação,
mas o resgate dos processos de extração para serem
expostos ao público, por meio de painéis, maquetes, fotos
e textos.
Assim, o visitante poderá, além de percorrer com
segurança as galerias e as dez trilhas existentes, apreciar as
amostras geológicas e biológicas, e adquirir artigos como
fotos, cartões postais, pôsteres e outros.
Projeto-modelo
Para Shimada, o sucesso da experiência do Parque Natural
Municipal do Morro do Ouro poderá estimular iniciativas
semelhantes em todo o país, onde existem muitas minas
desativadas, subterrâneas e a céu aberto, com potencial de
aproveitamento turístico. O próprio pesquisador do
Instituto Geológico avalia que as antigas minas de chumbo e
prata da região, algumas das quais nos domínios do Parque
Estadual Turístico do Alto Ribeira – PETAR possuem um
potencial turístico-didático.
Poderiam compor um interessante “Circuito das Minas do Alto
Ribeira”. “Por se encontrarem em região
economicamente carente, poderiam ser transformadas em atrativos
turísticos complementares aos naturais, como as já
conhecidas cavernas e, ao mesmo tempo, exerceriam importante
função educacional a respeito do aproveitamento de
recursos naturais não renováveis e suas
relações com o meio ambiente”, afirma.
O geólogo cita vários exemplos em outros países,
onde esses sítios ganham utilização alternativa,
adquirindo uma nova função social e econômica.
Shimada se entusiasma ao falar da Mine Land Osarizawa, em Kazuno, na
Província de Akita, no Japão, que teve a oportunidade de
conhecer pessoalmente. “A mina de minério de cobre e ouro
funcionou durante 1.200 anos, encerrando suas atividades em 1978, sendo
transformada em atração turística, recebendo mais
de mil visitantes por dia, com faturamento superior a US$ 5
milhões por ano, somente com a venda de ingressos”,
salientou.
São 700 km lineares de galerias subterrâneas, das quais
1.700 m foram preparados para visitação, com
iluminação especial, passarelas, corrimões e
até escadas rolantes para garantir conforto e segurança
aos visitantes. Estes recebem gravadores com fones de ouvido na
entrada, por meio dos quais ouvem a narração do
histórico da mina durante a visita. Painéis ilustram o
funcionamento da mina em seus vários períodos.
Todas as atividades da mina são simuladas por meio de bonecos de
dimensões humanas, alguns dos quais possuem sensores de
presença, movimentando-se com a aproximação dos
visitantes. No final do circuito, os visitantes sobem uma escada
rolante e desembocam numa grande loja de “souvenirs”. Um
museu com a maquete da mina, seu histórico, seu funcionamento e
amostras de minério e outras rochas da mina, além de
restaurantes e lanchonetes, completa o pólo turístico.
Outros exemplos citados são as galerias de antigas minas
subterrâneas de sal, em países do Leste europeu, que
têm sido utilizadas em terapias de moléstias
respiratórias. No Brasil, Shimada cita os exemplos de Mariana,
MG, onde a antiga mina de ouro da Passagem recebe
visitação turística intensa, e de Curitiba, PR,
que criou o Parque das Pedreiras, que abriga o Espaço Cultural
Paulo Leminski e a Ópera de Arame, que recebem milhares de
visitantes todos os anos, inclusive do Exterior.
Desativação da mina
Os relatos históricos revelam que o potencial aurífero da
localidade é conhecido desde os tempos coloniais, possivelmente
desde 1675, quando bandeirantes fundaram a Villa de Apiahy e abriram
lavras a céu aberto para a extração de
minérios secundários, resultantes do intemperismo do
minério primário e sua desagregação, que
proporcionaram a liberação, transporte e
deposição das partículas de ouro.
A exploração intensiva da área começou em
1885, quando a empresa Resende & Cia. encomendou pesquisas que
apontaram a viabilidade econômica da propriedade do Morro do
Ouro. Várias tentativas de exploração da mina
não surtiram os efeitos esperados, até que, em 1922,
David Carlos MacKnight e seus sócios adquiriram as propriedades
do Morro do Ouro e Água Limpa, abrindo 1.600 m de galerias e
recuperando 6,5 kg de ouro por meio de amalgamação
até o ano de 1924. O metal recuperado tinha 76% de ouro e 24% de
prata.
Em 1939, a mina e seus imóveis foram arrendados à Cia. de
Mineração de Apiaí, com participação
de capital japonês, pelo prazo de 15 anos com opção
para outros 15. No prazo de um ano, foram abertos 2.500 m de galerias,
de onde foram retiradas cerca de 10.000 t de minério com um teor
médio de 5 g/t. Segundo registros do CPRM, as reservas da jazida
foram estimadas em 100.000 toneladas de minério. O tratamento do
minério consistia em britagem, moagem e
recuperação do ouro grosso por amalgamação
com mercúrio. O ouro fino era recuperado por
cianetação, onde o metal era dissolvido em
solução de cianeto de sódio e, após
filtragem, recuperado por precipitação com
adição de zinco. Trata-se de processo ainda muito
utilizado nos dias atuais.
Mas, em 1942, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a mina
foi paralisada por força do Decreto Lei nº 4.166, que
determinou o confisco dos bens dos súditos do Eixo
Alemanha-Itália-Japão. Em 1945, foi determinada a
liquidação extrajudicial da empresa, mas em 1960 a
União reconheceu que os legítimos donos da empresa
não eram súditos do Eixo, devolvendo o remanescente do
empreendimento à Cia. de Mineração de Apiaí.
Porém, a longa paralisação havia provocado o
colapso no sistema subterrâneo de galerias, inviabilizando o
reinício da lavra conforme o plano original. Somando-se a isso,
as condições desfavoráveis do mercado do ouro na
época levaram a empresa a abandonar o empreendimento.
Da Secretaria do Meio Ambiente
Fonte: DiariodeIguape