PROBLEMAS AMBIENTAIS LEVARAM A COLAPSO DE MEGALÓPOLE MEDIEVAL
13/8/2007
Torre
do complexo de Angkor, no templo de Angkor Wat, fotografada ao pôr-do-sol (Foto:
Reprodução)
Uma equipe internacional de pesquisadores usou técnicas
sofisticadas de mapeamento por radar e fotografias aéreas para revelar o que só
pode ser descrito como uma megalópole da Idade Média. Trata-se de uma área
urbana com mais de 1.000 quilômetros quadrados e centenas de construções em
volta do famoso templo de Angkor Wat, no Camboja. Segundo os cientistas, as
estruturas de Angkor merecem o título de maior complexo urbano da Terra antes da
Revolução Industrial.
Os números da pesquisa, publicada na edição desta
semana da revista científica americana "PNAS", são de cair o queixo. Segundo os
cálculos da equipe, capitaneada pelo arqueólogo Damian Evans, da Universidade de
Sydney (Austrália), Angkor pode ter sido até dez vezes mais extensa que a maior
cidade maia já estudada até hoje, a metrópole de Tikal. Os trabalhos de
sensoriamento remoto revelaram 94 templos antigos já confirmados e outras 74
estruturas que também podem ter sido templos e precisam ser mais estudadas.
Segundo Evans e companhia, os dados apóiam a tese
de que Angkor, fundada pouco depois do ano 800 da Era Cristã pelos soberanos do
império Khmer, incluía vastos sistemas de gerenciamento hidráulico. Uma rede
complexa de canais, estradas, lagoas artificiais e campos de arroz teria sido
criada para administrar da maneira mais racional possível a água das chuvas e
alimentar a população da cidade.
Condomínio fechado
Mal
comparando, Angkor teria funcionado menos como uma metrópole moderna compacta e
mais como um condomínio fechado ou subúrbio americano -- as áreas de moradia ou
de construções públicas, como os templos, ficariam mais ou menos espalhadas ao
longo de trechos maiores do terreno. Só que, ao contrário dos condomínios
fechados modernos, esses trechos não teriam áreas verdes ou parques, mas sim
plantações de arroz, fossos e pequenas represas.
Já se sabe há tempos que
Angkor era um centro urbano de primeira grandeza, mas os pesquisadores ainda não
tinham tido chance de estimar qual teria sido o tamanho total da cidade
cambojana em seu auge, que foi mais ou menos do ano 900 ao ano 1200 de nossa
era.
Para isso, Evans e seus colegas, como Christophe Pottier, da Escola
Francesa do Extremo Oriente, combinaram imagens aéreas convencionais com um
radar especial carregado por um avião da Nasa. O Airsar, como é conhecido, foi
capaz de detectar diferenças muito sutis na umidade e no crescimento da
vegetação de várias partes do complexo.
Com isso, era possível
identificar os locais em que havia templos, por exemplo, porque a estrutura
clássica deles inclui uma elevação artificial cercada por um fosso cheio d´água.
Se mais tarde a área da elevação era usada para o plantio de arroz, surgia uma
diferença significativa na maturação do cereal e na quantidade de água do solo
quando ela era comparada com o antigo fosso.
Critérios parecidos
permitiram que os pesquisadores achassem quase 80 canais e/ou ruas -- a
distinção é difícil de fazer porque aparentemente a canalização de água dos
açudes para um ponto ou outro da cidade também podia servir como via de
circulação para os moradores.
Colapso
Esse sistema tão requintado
de gerenciamento dos recursos hídricos foi criado para aproveitar ao máximo as
chuvas de monções, que podem ser muito violentas e acabar deixando o resto do
ano muito seco, colocando as colheitas em risco. Mas há indícios de que os
habitantes de Angkor talvez tenham exagerado em sua obsessão por controlar a
natureza.
Nos últimos séculos de ocupação da cidade, há sinais de erosão
generalizada, perda da camada fértil do solo e excesso de desmatamento. Um dos
principais canais foi totalmente coberto com areia, e até hoje o nível de um
rio, o Siem Reap, está muito abaixo do resto da planície, sinalizando o fato de
que, em algum momento, ele "afundou" na terra e deixou de ser propício para a
inundação. É mais uma amostra de que os problemas ambientais não foram
inventados pelo mundo moderno.
Fonte: G1
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