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23/06/2008
O GEÓLOGO QUE VIROU BILIONÁRIO

João Carlos Cavalcanti, o JC, está construindo uma fortuna descobrindo e vendendo jazidas minerais no Brasil
Patrícia Cançado
O geólogo baiano João Carlos Cavalcanti, o JC, acabou de
comprar o 38º carro da sua frota pessoal. Também
está na lista de espera de uma Mercedes SR McLaren, de US$ 1,2
milhão - modelo que só existe na garagem de outros
três brasileiros - e de um jato Hawker 900, para viagens
internacionais. Será seu segundo avião. Ao mesmo tempo,
reforma uma mansão em Salvador, uma casa de campo no interior de
São Paulo e um resort em Itacaré. Pensa em abrir uma
escola de elite, comprar um hangar e montar um banco de investimentos.
JC, ainda um anônimo, é o mais novo sócio do clube
dos bilionários do Brasil.
A fortuna do geólogo cresceu praticamente da noite para o dia,
após uma grande descoberta de minério de ferro na Bahia.
Desde que vendeu a jazida para o investidor indiano Pramod Agarwal,
há dois anos, JC fala mais de cifras do que de pedras.
Segundo fontes de mercado, ele recebeu US$ 210 milhões por 70%
da reserva e, mais tarde, outros US$ 150 milhões pelos outros
30%. Agarwal é tido como o representante de Lakshimi Mittal,
dono do maior grupo siderúrgico do mundo. Bancos europeus
batizaram o projeto de Bahia Mittal, numa clara referência ao
grupo. O geólogo está proibido por contrato de falar
sobre o assunto. Ele diz que Mittal é seu amigo, de quem ganhou
uma estátua de Ganesha (um deus hindu), que hoje habita o jardim
de uma de suas mansões em Salvador.
Depois da venda, JC tornou-se um descobridor em série de
jazidas. Encontrou níquel em Tocantins e zinco em Minas Gerais e
vendeu parte das minas para a Votorantim. Ainda continua sócio
do grupo. Seu novo negócio é a GME4, uma espécie
de banco de jazidas avaliado internamente em R$ 2 bilhões, em
sociedade com o banco Opportunity, de Daniel Dantas. JC calcula que seu
patrimônio vai atingir US$ 1 bilhão neste ano, incluindo
aplicações financeiras, imóveis e
participações em empresas. “Se eu for fazer as
contas de Eike, já tenho mais de US$ 1 bilhão”, diz
o geólogo.
“Tudo o que tenho eu agradeço ao invisível”,
diz JC, que é monge leigo, flerta com o Budismo e acredita em
numerologia e astrologia. “Eike também é assim,
Bill Gates é assim, Antonio Ermírio de Moraes é
assim, Warren Buffett é assim”, diz, sem modéstia.
“Toda vez que chego ao campo, entro em silêncio. Aí
as coisas vêm.”
As “coisas” não vieram fácil para JC. Quem
conversa com ele percebe a necessidade que o empresário tem de
ser reconhecido. Embora diga que ganhou o primeiro milhão antes
dos 30 anos, trabalhando como consultor, o geólogo não
foi levado a sério pelos seus pares. Por ser polêmico,
exibicionista, ter fama de brigão e de exagerar nas
histórias que conta, o mercado não lhe deu credibilidade.
“Eles têm inveja de mim. É um bando de
geólogos de sapato de bico fino”, diz JC.
CONFLITO
A sua primeira descoberta de minério de ferro, a norte de
Caetité, foi derrubada publicamente em um seminário de
mineração em Ouro Preto (MG). “Muitos o chamaram de
maluco. Mas quem legitimou foi quem comprou”, diz o
diretor-adjunto do Departamento Nacional de Produção
Mineral da Bahia (DNPM), o geólogo João César
Freitas Pinheiro.
O empresário Eike Batista comprou a reserva e criou a IRX, da
qual JC ainda detém 5% das ações. A
relação entre os dois é conflituosa. Procurado,
Eike não quis dar entrevista. A reserva foi avaliada por
João Carlos Müller, consultor contratado pelo Rio Tinto,
parceira de Eike no negócio. Ele viajou até
Caetité e não encontrou nada, segundo a Rio Tinto.
“Esse sujeito é um destruidor de jazidas”,
defende-se JC.
Até vender a primeira mina de ferro, JC gastou mais de US$ 1
milhão do bolso para começar as pesquisas. O
geólogo já era rico, mas teve de vender casas de praia,
carros e raspar a poupança. Trocou o terno e a gravata por bota
e chapéu. Dormiu no mato, subiu serra. “Nunca tive e
não pretendo ter relação pessoal com ele, mas
é preciso reconhecer o mérito de JC. Ele chegou
primeiro”, afirma o diretor-geral do DNPM, Teobaldo Rodrigues de
Oliveira Júnior. “O ferro existia, mas o preço era
tão baixo que ninguém ligava.”
Pouco antes de JC começar a perfurar o solo baiano, o ferro
estava cotado a US$ 10. Hoje vale pelo menos dez vezes mais. O
geólogo diz que foi desafiado a pesquisar ferro por um grupo
siderúrgico espanhol e por um banco de investimentos.
“Só se falava de ferro em dois lugares no Brasil: Minas
Gerais e Pará. Mas geologia não tem fronteira”, diz
JC.
O geólogo não saiu a campo aleatoriamente. O mapa da mina
foi um artigo publicado numa revista de mineração em
1937. Nele, o engenheiro de minas Otto Henry Leonardo Júnior
já falava das ocorrências de minério de ferro em
Caetité. “Parece que essa coisa estava guardada para
mim”, diz.
Na geologia, é mais ou menos assim. No Brasil, quase tudo
já foi estudado e catalogado de alguma maneira. “A
descoberta é muito mais da oportunidade de mercado de
minério de ferro do que da mina propriamente dita, que já
estava mapeada”, diz Pinheiro. “Mas o caso do JC é
raro. No Brasil, a geologia rendeu mais políticos do que
empreendedores.”
FONTE: ESTADO DE SP