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28/01/2009
ROCHAS INDICAM QUE A LUA TINHA CAMPO MAGNÉTICO
A impressão duradoura sobre a Lua que as missões Apollo
nos legaram é a de um corpo celeste cinzento, empoeirado,
desolado e morto. Mas instrumentos deixados no satélite pelos
astronautas da Apollo registraram terremotos e oscilações
de rotação que oferecem sinais quanto à
presença de um núcleo ainda fervilhante. Agora, uma rocha
coletada mais de 36 anos atrás - durante a missão Apollo
17, o último vôo tripulado à Lua -, revela que o
núcleo derretido pode ter apresentado movimento rotacional no
passado e, com isso, gerado um campo magnético.
Dado o fato de que as planícies de lava na superfície da
Lua indicam um passado vulcânico que pode ter durado quase dois
bilhões de anos, "não creio que essa
observação deva surpreender", disse Ian Garrick-Bethell,
que acaba de se doutorar pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts
MIT).
Mesmo assim, as descobertas de Garrick-Bethell e de seus colegas,
publicadas pela revista Science, podem ajudar a resolver um debate
já antigo. Muitas das rochas trazidas da Lua apresentam
traços de um sinal magnético, o que sugere que se
resfriaram originalmente de um magma formado quando a Lua tinha um
campo magnético.
Isso surpreendeu muitos cientistas que imaginavam que a Lua fosse
pequena demais e fria demais para ter abrigado um dínamo
eletromagnético no qual correntes elétricas originadas da
convecção de ferro derretido geram um campo
magnético.
As provas não eram conclusivas porque a superfície da Lua
foi repetidamente atingida por meteoritos, e o choque do impacto
também pode deixar uma assinatura magnética nas rochas.
Mas uma rocha com 4,2 bilhões de anos de idade conhecida como
troctolito 76535 - (rocha formada pelos minerais olivina e
plagiocásio -, recolhida por Harrison Schmitt, o único
geólogo treinado entre os astronautas do projeto Apollo, oferece
um panorama intocado sobre a história primitiva da Lua.
A rocha é significativa porque se formou quando a Lua tinha
apenas 300 milhões de anos de idade, e estudos anteriores
demonstraram que ela jamais foi alterada pela força de um
impacto. A pesquisa de Garrick-Bethell demonstra dois campos
magnéticos distintos no interior da rocha, ou ao menos nos
pequenos fragmentos que ele examinou.
O primeiro, diz, surgiu quando a rocha se cristalizou pela primeira
vez, a talvez 50 km de profundidade e em um processo que demorou
milhões de anos. Depois, parece que um impacto de meteorito
conduziu a rocha para mais perto da superfície mas sem atingi-la
diretamente, o que a aqueceu o bastante para apagar parte de seu campo
magnético original e criar um segundo, em posição
distinta do primeiro, em um resfriamento que durou milhares de anos.
O resfriamento lento parece descartar a possibilidade de que os campos
tenham sido causados por impactos de meteoritos, dizem os
pesquisadores. Eles chegaram às suas conclusões ao
colocar lascas da rocha em campos magnéticos cada vez mais
fortes que "apagavam" o magnetismo da amostra aos poucos.
Isso permitia determinar se os átomos estavam alinhados na mesma
direção, o que seria de esperar caso o magma se tivesse
resfriado em um campo magnético. Um campo equivalente a 2% do
terrestre produziria o magnetismo observado no troctolito 76535,
disseram os pesquisadores.
Tradução: Paulo Migliacci ME
FONTE: The New York Times