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Cientistas anunciam rio subterrâneo de 6 mil km embaixo do Rio Amazonas
26/07/2011
Batizado de Hamza em homenagem a um dos pesquisadores que participaram
do estudo, rio corre a 4 mil metros de profundidade em meio a
sedimentos; descoberta foi possível graças a dados de 241
poços perfurados pela Petrobrás nas décadas de
1970 e 1980
Alexandre G. - O Estado de S.Paulo
Pesquisadores do Observatório Nacional (ON) encontraram
evidências de um rio subterrâneo de 6 mil quilômetros
de extensão que corre embaixo do Rio Amazonas a uma profundidade
de 4 mil metros. Os dois cursos d"água têm o mesmo sentido
de fluxo - de oeste para leste -, mas se comportam de forma diferente.
A descoberta foi possível graças aos dados de temperatura
de 241 poços profundos perfurados pela Petrobrás nas
décadas de 1970 e 1980, na região amazônica. A
estatal procurava petróleo.
Fluidos que se movimentam por meios porosos - como a água que
corre por dentro dos sedimentos sob a Bacia Amazônica - costumam
produzir sutis variações de temperatura.
Com a informação térmica fornecida pela
Petrobrás, os cientistas Valiya Hamza, da
Coordenação de Geofísica do Observatório
Nacional, e a professora Elizabeth Tavares Pimentel, da Universidade
Federal do Amazonas, identificaram a movimentação de
águas subterrâneas em profundidades de até 4 mil
metros.
O dados do doutorado de Elizabeth, sob orientação de
Hamza, foram apresentados na semana passada no 12.º Congresso
Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, no Rio.
Em homenagem ao orientador, um pesquisador indiano que vive no Brasil
desde 1974, os cientistas batizaram o fluxo subterrâneo de Rio
Hamza.
Características. A vazão média do Rio Amazonas
é estimada em 133 mil metros cúbicos de água por
segundo (m3/s). O fluxo subterrâneo contém apenas 2% desse
volume com uma vazão de 3 mil m3/s - maior que a do Rio
São Francisco, que corta Minas e o Nordeste e beneficia 13
milhões de pessoas, de 2,7 mil m3/s. Para se ter uma ideia da
força do Hamza, quando a calha do Rio Tietê, em São
Paulo, está cheia, a vazão alcança pouco mais de 1
mil m3/s.
As diferenças entre o Amazonas e o Hamza também
são significativas quando se compara a largura e a velocidade do
curso d"água dos dois rios. Enquanto as margens do Amazonas
distam de 1 a 100 quilômetros, a largura do rio subterrâneo
varia de 200 a 400 quilômetros. Por outro lado, a s águas
do Amazonas correm de 0,1 a 2 metros por segundo, dependendo do local.
Embaixo da terra, a velocidade é muito menor: de 10 a 100 metros
por ano (mais informações nesta página).
Há uma explicação simples para a lentidão
subterrânea. Na superfície, a água movimenta-se
sobre a calha do rio, como um líquido que escorre sobre a
superfície. Nas profundezas, não há um
túnel por onde a água possa correr. Ela vence pouco a
pouco a resistência de sedimentos que atuam como uma gigantesca
esponja: o líquido caminha pelos poros da rocha rumo ao mar.
Temperatura. Hamza e Elizabeth apontam a existência do que os
pesquisadores chamam de "dois grandes sistemas de descargas de fluidos
na Amazônia": o Rio Amazonas, com seus 6.100 km de
extensão, e o fluxo oculto das águas subterrâneas.
Segundo os dados apresentados por Elizabeth, o fluxo subterrâneo
é praticamente vertical - de cima para baixo - nos primeiros 2
mil metros. Depois, nas camadas mais profundas, muda de
direção, tornando-se quase horizontal. Depois de
atravessar as bacias do Solimões, Amazonas e Marajó, o
rio alcança o fundo do mar, perto da foz do Amazonas.
Hamza argumenta que as descargas do fluxo subterrâneo de
água doce poderiam explicar os bolsões de baixa
salinidade comuns no litoral da região.
O geólogo Olivar Lima, da Universidade Federal da Bahia,
assistiu à apresentação do trabalho e, na
ocasião, mostrou aos autores mais dados, obtidos em outros
poços perfurados pela Petrobrás na foz do Amazonas, que
confirmam as conclusões do estudo. Porém, acha um exagero
classificar a descoberta como um rio.
"Os resultados são muito bons", afirma Lima. "Só
não acho correto propor a existência de um rio
subterrâneo." Ele argumenta que os dados permitem afirmar a
existência de um imenso fluxo de água através das
formações permeáveis da Bacia Amazônica. Mas
a velocidade seria muito baixa para justificar a categoria de rio.
Contudo, se por um lado a velocidade não se compara à de
um rio convencional, o volume de água assume ordens de grandeza
que tornariam compreensível tal comparação,
reconhece o pesquisador.
A descoberta, por enquanto, não mudará a vida das
populações que habitam a Bacia Amazônica. Como o
rio está a uma profundidade muito grande e há muita
água doce na superfície, não seria economicamente
razoável perfurar a terra para acessar o curso d"água. O
estudo pode ajudar, no entanto, a prospecção de
petróleo.
PARA LEMBRAR
Há dois anos, cientistas italianos descobriram um rio
subterrâneo que corre embaixo de Roma, mais extenso que o Tibre -
o terceiro maior da Itália, com 392 quilômetros. Assim
como o brasileiro, o rio subterrâneo italiano foi encontrado
graças a dados de perfuração de poços.
No Brasil, outra reserva de água subterrânea é o
Aquífero Guarani, com 45 milhões de litros. A maior parte
fica no Brasil, mas ele também se estende no Paraguai, Uruguai e
Argentina.
Fonte: Estadão
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