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20/08/12
Geólogo, JC versus Eike Batista
Eike nunca cumpre o que promete, diz ex-sócio
João Carlos Cavalcanti, que apresentou a mineração
para Eike, conta ao site de VEJA porque o processa e diz que não
se surpreende com falta de resultado das empresas X
O geólogo baiano João Carlos Cavalcanti foi, por duas
vezes, sócio de Eike Batista. A primeira, no início dos
anos 1990, quando tentaram implantar um projeto de abastecimento de
água mineral, que fracassou. A segunda, e derradeira, ocorreu no
início de 2000, quando montaram o embrião da MMX.
Eike prometeu investimentos que, de acordo com Cavalcanti (mais
conhecido por J.C.), não tinha a intenção de
cumprir. Por isso, o homem mais rico do Brasil carrega nas costas um
processo de 22 milhões de reais movido pelo ex-sócio.
“Não tenho nada contra ele. Só quero que me
pague”, diz o geólogo, cuja fortuna estimada pelo mercado
em mais de 2 bilhões de reais foi conseguida graças a sua
habilidade em encontrar jazidas de minério Brasil afora.
Apesar de antagonistas, ambos guardam semelhanças: o misticismo,
o gosto pela aventura, um relacionamento estreito com o PT e o
apreço pelo luxo – tanto Eike quanto J.C. ostentam
mansões, jatinhos e Ferraris. “A diferença é
que eu cumpro o que prometo. O Eike não cumpre nada”, diz
o empresário.
O faro para os negócios também os une. J.C. criou e
vendeu diversas empresas ligadas à mineração, como
a Bahia Mineração, a Sul Americana de Metais e a GM4. Foi
sócio de Daniel Dantas nesta última e o considera um
empresário “que cumpre o que promete”. Além
disso, detém participação no grupo Votorantim
– empresa que considera a mais séria do país.
Recentemente, em mais uma de suas mirabolantes descobertas, desvendou
uma jazida de neodímio na Bahia – que é um dos 17
elementos que compõem o grupo de minerais chamado terras raras,
utilizadas na fabricação de aparelhos de alta tecnologia.
A descoberta é a primeira do Brasil e, segundo J.C., o
território guarda a mesma capacidade de exploração
que a região de Batou, na China – atualmente o local onde
estão 97% das terras raras do mundo.
A capacidade total da jazida pode chegar a 28 milhões de
toneladas, na avaliação do geólogo. Se o potencial
se concretizar, ele calcula que o valor da reserva pode chegar a 8,4
bilhões de dólares – um patrimônio digno de
um bilionário da Forbes. “Mas a Forbes já
não me interessa”, diz.
Durante a entrevista, concedida na noite desta quinta-feira, Cavalcanti
comparou Eike a "um meninão" que precisa botar a culpa em
alguém sempre que um negócio seu não vai bem. "O
Paulo Mendonça será a bola da vez, sobretudo depois dessa
queda nos preços das ações. Aconteceu algo
parecido com o Rodolfo Landim.
Ele o contrariou, quis aparecer mais que o Eike, começou a falar
demais e foi detonado. Já o Paulo, até pouco tempo
atrás, era chamado pelo Eike de Mr. Oil. Não creio que
continue assim", disparou. Naquela mesma hora, o conselho de
administração da OGX enviava fato relevante ao mercado
para comunicar a derrocada de Mendonça, que até
então presidia a petroleira.
Como o senhor conheceu Eike Batista?
Cavalcanti - Conheci o Eike há muito tempo, com ele me dando um
cheque pré-datado. Estava desenvolvendo uma pesquisa na
região amazônica para a Companhia de Pesquisa de Recursos
Minerais (CPRM) e ele estava envolvido com a exploração
de ouro por lá. Quando ele quebrou, quis entrar no segmento de
abastecimento público de cidades e criou a empresa Água
Certa. A intenção do Eike era criar uma rede de
abastecimento de água mineral. Como eu já tinha
trabalhado com isso na Brahma, antes da compra da Antarctica, ele me
convidou para montarmos esse projeto juntos. A ideia era criar campos
de abastecimento de água mineral em todo o Brasil. E eu descobri
para ele onde estavam as jazidas de água.
Por que o projeto não deu certo?
Cavalcanti - A parte de licitações se mostrou mais
complicada do que esperávamos. Além disso, as estatais de
saneamento não queriam abrir espaço para essa iniciativa
e ele acabou se desfazendo do negócio.
Quando vocês se desentenderam?
Cavalcanti - Em 2002, descobri uma jazida de minério de ferro em
Caetité, na Bahia. O Eike ficou sabendo e me procurou. Para
explorar essa área, montamos em sociedade a IRX, que veio a ser
o embrião da MMX. Ele detinha 80% do negócio e eu, 20%.
Nosso plano previa um alto investimento em pesquisa antes de
começar a explorar, mas ele não cumpriu isso. Como era
majoritário, tinha de investir algo em torno de 10
milhões de dólares. Mas como o Eike não coloca
dinheiro próprio em coisa nenhuma, ficou me enrolando,
até que em 2005 o Ministério de Minas e Energia (MME)
acabou retirando a licença de pesquisa das terras. Perdemos a
jazida. Se ele tivesse cumprido o que prometeu, a
exploração teria me rendido cerca de 200 milhões
de dólares.
Se o objetivo de Eike era ter uma mineradora, porque optou por não explorá-la?
Cavalcanti - Ele usou argumentos furados, como, por exemplo, de que
não havia infraestrutura para escoar o minério. Ora,
quando Carajás foi descoberta, também não havia
uma logística adequada. No entanto, quando seu potencial foi
conhecido, o governo militar construiu a ferrovia Norte-Sul para
viabilizar o projeto. Ninguém investe em infraestrutura antes de
conhecer o potencial do minério. Tanto que, no caso da MMX,
também não havia logística. Eles estão
construindo. Mas até agora, não saiu de lá nenhum
quilo de minério.
O senhor acompanhou o início da OGX?
Cavalcanti - Sim. Acompanhei desde o início, pois foi na mesma
época em que eu ficava muito no escritório dele. Ele
pegou relatórios do governo federal, de estatais, como a CPRM,
reorganizou-os, mudou a capa, traduziu e foi para o Canadá
apresentá-los a fundos de pensão. Com base naquilo,
conseguiu levantar 500 milhões de dólares e voltou ao
Brasil para participar dos leilões da Agência Nacional de
Petróleo (ANP). Com esse dinheiro, ele conseguiu arrematar as
jazidas marginais da Petrobras.
Aquilo que a ANP colocou em leilão não era bom.
Não eram as melhores jazidas. Mas ele soube valorizar isso.
Trouxe os melhores executivos da Petrobras, a começar pelo
Rodolfo Landim, que entendia tudo de perfuração. Vi
muitos grandes nomes passarem por lá. Quando ficava sabendo que
um profissional estava se destacando no mercado, Eike mandava trazer
para a OGX pagando muito bem. Por outro lado, quando o cara não
dava o resultado que ele esperava, ele humilhava, colocava apelido, e
tudo mais. Parece um meninão.
O senhor acredita que seja
possível extrair os tais 5 mil barris/dia dos poços da
OGX, conforme a última previsão da empresa?
Cavalcanti - É possível que sim. Nenhum poço que
veio da Petrobras deve render mais que isso. Se a capacidade fosse de
40 mil barris/dia, como ele disse no início, porque a Petrobras
iria se desfazer? Não faz sentido. O Eike nunca mexeu com isso
antes, não sabe como funciona e pegou jazida com pouca
capacidade. Agora ele solta fato relevante para informar cada cheiro de
gás que ele sente nos poços.
Por que nenhum investidor contestou os dados dos projetos do Eike, como essa capacidade de 40 mil barris/dia, por exemplo?
Cavalcanti - Isso é porque ele é o queridinho do
investidor estrangeiro. Ele tem cara de alemão, fala cinco
línguas e é muito cativante. E tem um paizão, que
é o senhor Eliezer Batista. Esse sim é um grande homem,
um superdotado. Além disso, o Eike é um baita marqueteiro
que vendia enciclopédia na Alemanha. E um cara que consegue
vender enciclopédia, vende qualquer coisa. Não dá
para negar que é muito esperto e consegue conquistar o
investidor, o governo, todo mundo. Ele arrematou o terno do Lula em um
leilão em São Paulo e, no dia seguinte, o Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) liberou 150
milhões de reais para que reformasse o Hotel Glória. Ele
consegue o que quer.
Mas, teoricamente, quem
entende do mercado de óleo e gás não deveria saber
dos riscos de uma empreitada como essa? Como ninguém desconfiou
da capacidade de um poço descartado pela Petrobras?
Cavalcanti - Pois é, deveria. O problema é que os
banqueiros e o mercado financeiro não entendem de
petróleo. Não há geólogos trabalhando como
analistas, nem engenheiros de minas. Há economistas que
não entendem nada desse setor e não acertam nada. Eles
entendem de números, indicadores, mas não sabem como as
coisas funcionam realmente.
O senhor tem raiva do Eike?
Cavalcanti -Não, não tenho nada contra ele. Só
quero que me pague os 22 milhões de reais que me deve.
Acredita que ele vai recuperar a credibilidade junto ao investidor?
Cavalcanti - Não sei. Acho difícil. A única coisa
que ele produz realmente hoje é um macarrão muito bom no
Mister Lam, um restaurante chinês que ele abriu, onde
também há um camarão maravilhoso. Encontrei-o
lá há um ou dois anos, antes de entrar com a
ação na Justiça. Conversamos e ele me disse que ia
ultrapassar o Bill Gates. Mas não vai. Acho que o universo vai
começar a dar o troco nele. Ele precisa ser mais simples, menos
arrogante, prometer menos, ajudar mais. Tanto o Bill Gates quanto o
Carlos Slim, o Lakshmi Mittal e o Warren Buffett são homens
simples, que dedicam um bom tempo e dinheiro à filantropia. O
que o Eike faz? Que hospital ele construiu? O que retribuiu para a
sociedade?
O senhor também foi
sócio de outro executivo conhecido, Daniel Dantas, do Banco
Opportunity. Ele e Eike Batista possuem traços em comum?
Cavalcanti - Não há comparação. O Daniel
Dantas cumpre tudo o que promete. Em todos os negócios que fiz
com ele, sempre cumpriu. É um sujeito discreto, reservado e
inteligentíssimo. É um dos maiores criadores de gado do
país e vai começar a produzir minério em 2014,
explorando jazidas no Piauí.
Fonte: Exame.com
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